23/10/2026
23/10/2026
Em entrevista exclusiva ao Portal N10, Geraldo Ferreira defende o uso da tecnologia para ampliar o acesso a especialistas, mas alerta para riscos de consultas rápidas, remuneração reduzida, laudos de baixo custo e decisões médicas delegadas à inteligência artificial.
A expansão da telemedicina pode facilitar o acesso da população a médicos especialistas, mas não será suficiente para reduzir as filas do Sistema Único de Saúde (SUS) sem investimentos em profissionais, exames, leitos e infraestrutura. O alerta é do médico Geraldo Ferreira, presidente do Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Norte (Sinmed-RN) e da Federação Nacional dos Médicos (Fenam), que analisou, em entrevista exclusiva ao Portal N10, as possibilidades e os riscos de ampliar o atendimento remoto na rede pública brasileira.
Neste sentido, Dr. Geraldo reconhece o potencial da tecnologia para conectar hospitais do interior a especialistas, acompanhar pacientes com algumas doenças crônicas e facilitar a avaliação de exames. Sua principal preocupação é com a possibilidade de transformar esses recursos em um modelo de consultas excessivamente rápidas, remuneração reduzida e atendimento sem a estrutura necessária para dar continuidade ao tratamento. “Acessibilidade não significa produtividade”, afirmou.
A discussão ganhou espaço na campanha presidencial depois que Flávio Bolsonaro assumiu o compromisso de ampliar a telemedicina integrada ao SUS em acordo com Augusto Cury. A proposta contempla uma rede nacional de atendimento remoto, com inteligência artificial e equipes médicas para ajudar a reduzir a espera por especialistas. Na avaliação do presidente do SINMED-RN e da FENAM, entretanto, a tecnologia precisa ser tratada como instrumento complementar da assistência, não como substituta da presença do médico e dos demais serviços de saúde.
Ao comentar a possibilidade de aumentar o número de consultas, o presidente do Sinmed-RN questionou a ideia de que a adoção de plataformas digitais seja suficiente para elevar a produtividade da rede pública. Segundo ele, a telemedicina pode incluir no sistema pessoas que hoje encontram dificuldades para chegar a um especialista, mas essa ampliação também gera demanda por exames, avaliações presenciais, tratamentos e internações.
O médico explica que oferecer uma consulta mais acessível não significa necessariamente concluir o atendimento com maior rapidez. Quando o contato remoto identifica a necessidade de um exame ou de encaminhamento para um especialista, o paciente continuará dependendo da estrutura presencial. Sem capacidade para absorver essa demanda, a tecnologia pode facilitar a entrada no sistema, mas não necessariamente a resolução do problema de saúde.
O médico também citou a atenção básica de Natal como exemplo de uma rede que, em sua avaliação, precisa ampliar equipes e contratações. Durante a entrevista, mencionou uma necessidade estimada de 200 equipes de Saúde da Família, diante de aproximadamente 140 existentes.
Apesar das ressalvas, Dr. Geraldo identifica aplicações concretas da telemedicina que considera positivas. Uma delas é a teleinterconsulta, modalidade em que um profissional responsável pelo atendimento presencial troca informações com outro médico, geralmente especialista, para discutir um diagnóstico ou definir a melhor conduta.
O dirigente exemplifica a situação de uma unidade de pronto atendimento ou de um hospital regional que recebe um paciente com alteração cardíaca, mas não dispõe de cardiologista de plantão. O médico que está com o paciente pode encaminhar um eletrocardiograma e discutir os resultados remotamente com um especialista, mantendo a responsabilidade pelo acompanhamento presencial.
Essa possibilidade foi relacionada à situação dos hospitais do Rio Grande do Norte. Em maio de 2026, o Sinmed-RN manifestou preocupação com uma proposta da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) para realizar pareceres cardiológicos a distância a partir do Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, em Natal, destinados a pacientes do interior.
Na ocasião, o sindicato argumentou que a incorporação dessa demanda sem ampliar a equipe de cardiologistas poderia sobrecarregar os profissionais responsáveis pelos pacientes internados e pelos casos de urgência do próprio hospital. A entidade solicitou uma discussão técnica com a Sesap sobre estrutura, contratação e funcionamento do serviço.
O presidente do Sinmed destacou ainda a utilidade das consultas remotas no acompanhamento de pacientes com hipertensão e diabetes, especialmente quando o atendimento envolve revisão de exames, monitoramento de indicadores e ajustes de conduta. Nesses casos, a tecnologia pode evitar deslocamentos desnecessários, desde que o paciente continue recebendo avaliação presencial quando indicada.
Uma das críticas mais contundentes de Geraldo Ferreira envolve a remuneração médica em modelos de atendimento remoto e contratos terceirizados. Ele relatou a existência de consultas remuneradas a R$ 25 e afirmou que o avanço tecnológico não deveria ser utilizado como justificativa para reduzir o pagamento dos profissionais ou impor uma quantidade excessiva de pacientes por jornada.
Na avaliação do dirigente, empresas contratadas para fornecer serviços médicos podem buscar redução de custos por meio da diminuição dos valores pagos por atendimento. Essa preocupação também se estende a contratos do poder público, especialmente quando o critério econômico não é acompanhado de exigências suficientes de qualidade assistencial.
Como exemplo da pressão sobre o trabalho médico no estado, o dirigente sindical mencionou um município do Oeste Potiguar, onde, segundo informações recebidas pelo sindicato, a substituição de uma empresa contratada teria reduzido o valor de um plantão de 12 horas de R$ 1.200 para R$ 850. O caso também foi relatado em publicação do próprio Sinmed-RN sobre a precarização dos contratos médicos.
O médico afirma que consultas realizadas sob pressão de tempo podem comprometer a escuta do paciente, o entendimento dos sintomas e a segurança das decisões clínicas. Para ele, a adoção da telemedicina é um avanço tecnológico que não deve ser combatido em si, mas aperfeiçoado com regras de fiscalização, responsabilidade profissional e condições adequadas de trabalho.
Outro ponto levantado pelo presidente do Sinmed-RN é o telediagnóstico, utilizado para permitir que exames realizados em uma unidade sejam interpretados por médicos localizados em outra cidade ou estado. Ele revelou ter conhecimento de contratações nas quais um laudo de tomografia, inicialmente estimado em R$ 45, teria sido contratado por R$ 24.
O dirigente associou preços muito baixos ao risco de sobrecarga profissional e questionou os mecanismos de controle da qualidade dos laudos. Também relatou preocupações com diagnósticos equivocados.
O telediagnóstico é uma modalidade reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina, na Resolução nº 2.314/2022. A norma exige que a emissão de laudos e pareceres seja feita por médico com Registro de Qualificação de Especialista (RQE) na área relacionada ao procedimento e estabelece responsabilidade técnica no serviço onde o exame é realizado.
Para o paciente, a questão fundamental não é a distância entre o local do exame e o profissional responsável pelo laudo, mas a qualificação de quem interpreta as imagens, a segurança das informações e a existência de mecanismos para revisar eventuais inconsistências.
Geraldo Ferreira também comentou o uso de inteligência artificial para triagem, interpretação de informações clínicas e funcionamento de cabines de atendimento remoto. O dirigente reconhece que equipamentos automatizados podem medir indicadores e facilitar o contato com profissionais, mas considera indispensável a participação médica nas decisões sobre diagnóstico e tratamento.
Esse cuidado encontra respaldo na Resolução CFM nº 2.454/2026, cujas regras entraram em vigor em 26 de agosto. A norma estabelece que a inteligência artificial deve funcionar como ferramenta de apoio, preservando a autonomia e a responsabilidade do médico. Também proíbe delegar à IA a comunicação de diagnósticos, prognósticos ou decisões terapêuticas sem mediação humana.
A regulamentação exige atenção à confidencialidade dos dados e à transparência no uso de sistemas automatizados. O paciente tem direito de saber quando a inteligência artificial é utilizada como apoio relevante em seu cuidado. Na entrevista, Dr. Geraldo destacou que a segurança das informações é uma das condições necessárias à expansão dessas tecnologias.
A proposta de ampliar o atendimento remoto ocorre em um sistema que já utiliza ferramentas de telessaúde. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde em outubro de 2026, os núcleos de telessaúde estão presentes em 4,4 mil municípios, atendem 62 especialidades e realizaram mais de 10,3 milhões de procedimentos desde o início de 2025.
O ministério também anunciou a distribuição de sete mil conjuntos de equipamentos para teleatendimento em unidades básicas de saúde de 4,5 mil municípios. Esses números demonstram que a tecnologia já integra a rede pública.
No segundo turno presidencial, o tema ganhou dimensão política com o compromisso assinado por Flávio Bolsonaro, do PL após o apoio de Augusto Cury, ex-candidato a presidência pelo Avante. A proposta original do escritor previa atendimento digital em até 30 minutos para casos compatíveis e a possibilidade de resolver remotamente uma parcela expressiva das consultas básicas. O documento assumido pelo candidato do PL prevê a expansão da rede de telemedicina e o uso de inteligência artificial, mas não estabelece, de forma detalhada, como seriam implementadas aquelas metas operacionais.
Na avaliação de Geraldo Ferreira, o resultado de qualquer ampliação precisará ser medido pela capacidade de garantir atendimento adequado ao paciente, e não simplesmente pelo número de consultas realizadas. O dirigente defende que a tecnologia ajude a conectar profissionais e serviços, com responsabilidade médica, fiscalização dos contratos e preservação do atendimento humanizado.
A legislação brasileira também preserva a possibilidade de atendimento presencial. A Lei nº 14.510/2022 assegura ao paciente o direito de recusar a modalidade remota e solicitar atendimento presencial. A regulamentação do CFM permite que até a primeira consulta ocorra virtualmente em condições adequadas, mas mantém a avaliação presencial como referência e exige acompanhamento presencial periódico em doenças crônicas.
O alerta do presidente do Sinmed-RN é que a tecnologia não deve criar uma falsa equivalência entre mais contatos digitais e assistência efetivamente resolvida. Sem médicos disponíveis, exames, leitos e continuidade do cuidado, a telemedicina pode ampliar a porta de entrada do SUS sem eliminar os obstáculos que o paciente encontrará depois dela.