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O Espírito da Época - Artigo de Geraldo Ferreira

08 mar 17

O Espírito da Época - Artigo de Geraldo Ferreira

 

Em As Vantagens do Pessimismo, Roger Scruton diz que Hegel concedeu ao mundo uma forma de pensar a História como um desenvolvimento contínuo, cada período exibindo um estágio no desenvolvimento espiritual da humanidade, um Espírito da Época ou Zeitgeist, de caráter dinâmico que transforma aquilo que herda e é descartado quando chega sua hora. O conceito remonta a Herder, que fez a tradução numa crítica ao trabalho genius seculi, gênio ou espírito guardião do século, de Adolph Klotz. No conceito de Hegel o Zeitgeist associa processos temporais ao espírito coletivo, para a compreensão da trajetória do comportamento humano, e isso se transformou em arma poderosa e perigosa para justificar as inovações e repudiar o passado. Essa filosofia está na raiz da ideia de progresso, e considera todas as ações livres dos indivíduos como consequências da época em que vivem. A periodização da cultura ocidental em escolas como romântica, barroca, moderna, visível na literatura, música, arquitetura, pintura, seria fruto de movimentos sucessivos no mundo das ideias. Isso pode ser visto apenas a uma distância suficiente, uma perspectiva histórica de longo prazo. Pretender projetar o futuro ao observar a própria época sob essa lente é uma falácia perigosa, porque limita sua liberdade e a visão do que é acidental ou essencial, e é um passo rumo a uma teoria científica da história, que influenciou Marx e engendrou o socialismo científico. Nas artes, no pensamento religioso e na especulação filosófica tem sido mais provável um declínio que aperfeiçoamento de uma geração para outra. Na política, a crença no progresso contínuo é veneno, interesses levam a mudança das instituições políticas, jurídicas e administrativas, mas nem sempre é progressiva, sendo os resultados incertos e disputados. A sedução da ideia de progresso levou as pessoas a agarrar-se ao espírito da época, descartando ou rejeitando velhos costumes, valores ou práticas, crentes na lei do desenvolvimento histórico. No entanto, este espírito da época, com seu clima intelectual e cultural, características sociais e comportamentais está sendo criado e manipulado pela política, ou pelo mercado, e defendido intelectualmente, para forçar realidades, sem raízes em processos ou história. De forma arbitrária, os que se opõem são estigmatizados como reacionários, inimigos, nostálgicos, que impedem a marcha da história, e devem ser removidos de suas posições de influência e poder.

*Artigo de Geraldo Ferreira, presidente do Sinmed RN, publicado no Novo Jornal, dia 08/03/2017.

Fonte: Geraldo Ferreira Filho