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Ideologias e heresias como tentações na história

18 nov 21

Ideologias e heresias como tentações na história

As ideias se reciclam. Na roda da história nascem, renascem e misturam-se filosofias e mitos, ideologias e heresias, com desdobramentos no campo da ação prática e impactos políticos. O Papa Francisco, em 2018, apontou duas tendências ou dois desvios que afetam o mundo atual “que se assemelham em alguns aspectos a duas antigas heresias, isto é, o pelagianismo e o gnosticismo”. O pelagianismo é centrado no individualismo, no sujeito autônomo cuja realização depende apenas e tão somente de suas forças, o gnosticismo imagina um mundo com um erro essencial na criação e o esquecimento do mundo pelo criador, o erro deveria ser corrigido com uma nova criação. Ao descobrir, inventar, criar, desenvolver, aperfeiçoar, superar, a vida humana se organiza como um projeto em que o trabalho humano se modifica, deixando de ser uma maldição para se abrir ao processo de criação. A expulsão do paraíso passa a ser o prelúdio de entrada do ser humano como criador de seu próprio mundo. O projeto humanista-neopagão, surgido com a Modernidade, assume compromisso com a criatividade, buscando superar a criação antiga por meio do desenvolvimento tecnológico e estético. O ser humano passa a ser o Deus da segunda semana da criação, substituindo o mundo antigo e torturado, obra de um Deus confuso. Criação, queda e redenção sempre foram os grandes temas do pensamento teológico. Desde Santo Agostinho, o cristianismo havia sido principalmente uma religião da obediência, cuja máxima era a imitação de Cristo. Na modernidade, a religião da mediação se transforma na religião da imediação, a imitação de Cristo passa para um segundo plano, cedendo lugar a uma imitação do Pai e do Espírito. Cria-se o vínculo entre conhecer, querer e poder, o trabalho humano habilita-se a tudo criar, os seres humanos assumem formas entusiásticas de seres fazedores. O mal-estar não demora a invadir o homem, ao ver o novo mundo, fruto de sua criação, ainda mais desordenado e desorientado que o antigo. Leszek Kolakowski escreve que a dissolução do sagrado, a ilusão de que a não há limites para a perfeição da qual a sociedade humana é capaz ameaçam a cultura e anunciam sua degeneração, se não seu suicídio, “às vezes tem-se a impressão de que todas as palavras e sinais que compõem o nosso quadro conceitual e fornecem nosso sistema básico de distinções estão se dissolvendo diante dos nossos olhos; como se todas as barreiras entre conceitos opostos estivessem gradualmente sendo demolidas”. Não há mais distinção clara entre algoz e vítima, lei e arbitrariedade, igualdade e despotismo, homem e mulher,  crime e heroísmo, arte e bufonaria, conhecimento e ignorância. Essa ilusão semeia o desespero, a quimera que proclama que o homem pode se livrar de tudo, tradições e sentidos pré-existentes, e que todo sentido pode ser decretado por capricho arbitrário, “longe de nos descortinar a perspectiva da autocriação divina, nos deixa suspensos na escuridão”. O mal-estar na humanidade é colocado por Freud como um conflito entre a pulsão individual e a civilização, onde o indivíduo acaba se sacrificando. A origem é mais profunda, o neognosticismo, que avança na modernidade, não quer saber da graça que perdoaria o crime contra Deus, razão da queda do homem, “o que lhe dá asas é a lembrança carismática de um direito pré-primordial à perfeição”, escreve Sloterdijk. Ao se apossar das heresias como fio condutor da história, as ideologias totalitárias imaginavam nova terra e novo homem, amparados no delírio de que não existem limites para as mudanças que a vida humana pode sofrer. Essa ilusão se mostrou demente, incapaz da criação perfeita, o mundo, misturando ideologias e heresias, adotou as regras mais brutais para enquadrar a humanidade nas regras que levariam ao novo homem e ao mundo novo. No desígnio, o erro mancomunou-se com o terror. Para Roger Scruton os regimes totalitários se alimentam do ressentimento. Na junção com as heresias, o ressentimento contra Deus e o mundo, sua criação.

Dr. Geraldo Ferreira – Médico e Presidente do Sinmed RN

Artigo publicado no Agora Jornal dia 17 de novembro de 2022