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Artigo: O realismo atormentado que alvoroça o mundo

15 set 21

Artigo: O realismo atormentado que alvoroça o mundo

O mundo feliz antevisto pelo multiculturalismo, pela globalização e pela diversidade, parece ser antes uma representação longínqua, se não uma falsificação do real. O outro nem sempre é isento de hostilidades, e muitas vezes as identidades propostas são fluidas e subjetivas, e a nova humanidade parece ser na verdade uma geração desenraizada. “Os jornais parecem falar de um universo diferente, sem nenhum contato com a nossa vida cotidiana”, diz Arthur Kostler. A minoria que controla e que tem o comando ideológico da mídia, da universidade e das artes cria uma negação do real, buscando um condicionamento capaz de modelar as mentalidades, para a partir daí construir sua realidade autorizada. “Quanto mais a representação midiática de uma sociedade se distancia de sua experiência concreta, a ponto de se voltar contra ela, mais se acentua o mal-estar político potencialmente insurrecional”, escreve Mathieu Bock-Côté em O Império do Politicamente Correto. Se o real não corresponde à doutrina que o comando ideológico adota, ele deve ser substituído por um mundo paralelo que deturpa e corrompe o verdadeiro. As contorções da mídia e dos ideólogos a fim de imporem suas visões de mundo buscam a qualquer custo salvar as teorias apaixonadas, sem simetria com a realidade. Vivemos um momento revolucionário, isto se dá quando o objetivo é estabelecer uma nova ordem, procurando criar um completo e profundo recomeço político. O difícil é distinguir o que é construção e destruição nessa reelaboração da sociedade. “O domínio absoluto de uma ideologia sobre o real, de uma ideologia que com o tempo deve substituir o real, é a característica basilar do totalitarismo”, diz Bock-Côté. O afundamento da sociologia econômica como base do marxismo e da esquerda não levou à morte da utopia, a contracultura foi o fermento e o motor que reativou as rodas da engrenagem, trazendo a matéria ideológica necessária à renovação da utopia. Tudo passou a ser visto pelo olhar da dominação, sendo instituições e tradições meros arranjos circunstanciais de poder. “A crítica ao capitalismo cede lugar à crítica à civilização, a crítica econômica é substituída pela crítica cultural, ainda que a primeira permaneça presente na segunda por algum tempo”, escreve Roger Scruton. Os defensores da justiça social, da política identitária e da interseccionalidade querem o fim da teia de opressão que envolve o mundo. Essas demandas que ocupam obsessivamente a mídia, quando aparentemente superadas, avançam sempre um degrau, permanecendo acesas, com a incorporação de novos conceitos e vocábulos a exprimirem  exaustivamente novos formatos de abusos e coações sobre grupos fragilizados, necessitados de favorecimento e tutela, ampliando o alcance do discurso, como se ao invés de contida, a opressão se renovasse indefinidamente. Em A Loucura das Massas, Douglas Murray expõe “as opressões interligadas não se ligam de maneira organizado, rangendo hedionda e ruidosamente umas contra as outras e no interior de si mesmas”, e se desdobram sobre a sociedade em “espírito de acusação, reivindicação e rancor com uma velocidade notável”. O espaço público não é neutro, há fronteiras que delimitam o que pode ser dito, aceito ou não tolerado. Como as alegações mais extremadas de opressão continuam a ser homogêneas na mídia, as pessoas se veem dentro de um cenário sempre sombrio. No entanto, poucos imaginam que um país ou a sociedade não consigam ser melhorados. Apresentar a sociedade como se cabalmente tomada pelo preconceito, pelo ódio e pela opressão, tem por eixo uma subestrutura ideológica. As reivindicações de direitos tem sido levadas avante de forma incendiária, há forças cujo interesse não são as soluções, mas levar as pessoas à descrença em tudo, como alavanca para os objetivos de reforma do mundo. Então, de repente algum movimento aparecerá como portador das respostas “que levará todo mundo para um lugar perfeito, cujos detalhes serão fornecidos em um pós futuro”, fecha Murray.

 

Dr. Geraldo Ferreira – Médico e Presidente do Sinmed RN

 

Artigo publicado no Agora Jornal dia 15 de setembro de 2021.