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Artigo: O diabo invadindo a história

11 nov 21

Artigo: O diabo invadindo a história

O ser humano é parte do processo divino de autorrealização. Na história, o diabo tenta, muitas vezes com sucesso, converter o bem em mal. Essa luta é travada ao longo dos séculos, a arena política é palco essencial do conflito. A independência e autodeterminação dos reinos da política, arte, ciência e filosofia gerou um mundo fragmentado, confuso, que roda indefinidamente atrás de uma nova ordem. A teodiceia cristã repete há séculos que a razão e a capacidade de fazer o mal são inseparáveis. A incapacidade para o mal desfiguraria a própria criação, por incompatibilidade com razão e liberdade. Sendo a criação um ato de amor entre o criador e as criaturas, ambos dotados de razão, só o uso desse atributo pode fazer surgir o bem por vontade própria. Se a capacidade de fazer o bem, do ponto de vista moral, exige voluntariedade, essa mesma capacidade está necessariamente estendida ao mal. Deus é “limitado pelos padrões de coerência lógica e incapaz de criar mundos contraditórios”, diz Leszek Kolakowski. Liberdade criativa, conhecimento afetivo e amor ilimitado, essas são características de Deus que os homens, criados à sua semelhança, deveriam cultivar em si próprios. A moral pode existir sem religião, mas o tipo de religião que os profetas hebreus ensinavam “confere à moral uma totalidade, uma compaixão, um poder é uma esperança que simplesmente não estão disponíveis na moral secular”, escreve Keith Ward em Deus, Um Guia Para Os Perplexos. Hegel é considerado um dos filósofos de mais difícil compreensão, mas mudou a face do pensamento filosófico da Europa. Ele propôs que toda realidade é autoexpressão do espírito absoluto, dessa forma o espírito cria ou atualiza possibilidades no universo temporal finito. Carl Marx usou a Teoria de Hegel em seus escritos sobre o comunismo. Criou o materialismo dialético em substituição ao espírito, e definiu a história como dirigida por forças da competição e da sobrevivência, tendo como pano de fundos a competição para a produção e troca de bens. Não se trata de um progresso guiado pelo Espírito para a paz e a justiça, mas de um processo norteado pela ganância, competição e exclusões cruéis. Deu tudo errado, a receita de Hegel, tomada por Marx, de livrar-se do Espírito para priorizar a necessidade econômica na história, resultou em torturas e massacres de populações inteiras. Por trás da força motriz, a ideia de que “a moral seria apenas uma espuma derramada sobre a superfície da produção econômica e da troca”, escreve Ward. As forças totalitárias do nazismo, do comunismo e fascismo fizeram para sua prevalência a rejeição completa de todas as barreiras e restrições que a “política, a civilização, a moralidade, a religião, os sentimentos naturais de compaixão e as ideias universais de fraternidade construíram a fim de moderar, reprimir ou sublimar o potencial humano para a violência coletiva ou individual”, escreve Pierre Hassner em Além da História e da Memória. Vladimir Tismaneanu, em O Diabo na História, diz que o comunismo apresentou uma nova concepção da existência humana, sociedade, economia, psicologia social e individual, arte, tendo como fim supremo da ação política construir um homem novo, mas apenas ao Partido cabia, dentro de sua própria moralidade, definir os objetivos dessa existência. O Partido e o Estado tornaram-se valores supremos e absolutos. “Eu penso que o inferno é uma fábula”, diz Fausto ao diabo, na obra de Marlowe, ao que ele responde “vá pensando, até que a experiência te demonstre”. O mal se infiltra na história sempre que a oportunidade aparece. Sepultar a dúvida, censurar o pensamento, impedir a livre manifestação da opinião, tudo conspira contra a força da liberdade criadora, que edifica o mundo. José Ingenieros escreve, em O Homem Medíocre, que a dúvida no homem sempre foi “o afã de retificar os próprios erros até aprender que toda crença é falível e que os ideais sempre admitem um novo aperfeiçoamento”. São a razão e a liberdade que expulsam o diabo da política.

Dr. Geraldo Ferreira – Médico e Presidente do Sinmed RN

 

Artigo publicado no Agora Jornal dia 11 de novembro de 2021.