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Artigo: Entre a civilização e andar de quatro

30 dez 21

Artigo: Entre a civilização e andar de quatro

Hannah Arendt comentou que, a cada geração, a civilização ocidental é invadida por bárbaros, são as crianças que precisam ter inscritas nos seus corações as noções de decência, justiça e autocontrole. É o desafio da família, da religião, da política. Nas últimas décadas a retórica da elite ocidental se tornou cada vez mais hostil à democracia, à liberdade de expressão e ao capitalismo. Se de alguma forma Marx perdeu, quando sua teoria social, adotada como política e economia por várias nações, fracassou; por outro lado, venceu. Hoje, muita gente não se define de acordo com a região onde mora, a religião que professa, nem com a família ou com as tradições, mas de acordo com seu trabalho, renda e posição social. A redefinição da identidade perpassando questões de gênero, sexualidade, cor de pele e etnias busca criar novas lealdades, em substituição às que deram forma à sociedade como a conhecemos, para permitir que desponte uma nova ordem coletivista, sob domínio e comando do Estado totalitário, escreve Owen Strachan em Engajamento Cultural. Como duro adversário a essa pretensão, levantam-se lealdades antigas que deram forma e ordenamento à sociedade, sob a égide da liberdade, dos ditames da moralidade e da regulamentação necessária para aplicação da justiça. A destruição desses elementos antigos e grandiosos, nos faz bestas e presas de um mestre sem qualquer senso de caridade e generosidade, o Estado totalitário. E o totalitário astuto conhece e compreende o poder que os laços de sangue e a devoção religiosa tem de manter vivos na população os valores e incentivos que podem, no futuro, servir como alicerce de resistência. “Busca-se  emancipar cada membro, como uma massa sem mente, sem alma e sem tradição”, pontua Dr. R. A. Nisbet, sociólogo, em Quest for Community. A família é a mais importante instituição mediadora em qualquer sociedade, com sorte ela nos converte de bárbaros naturais em cidadãos decentes. Antes de nascermos, pertencemos a uma comunidade, a família imprime linguagem, costumes, convenções morais, valores e expectativas de como deve funcionar a sociedade. Forças hostis à família não são impessoais ou inconscientes, mas fruto do desejo deliberado de que o Estado Político assuma para si todas as responsabilidades que a família detém, escreve Russel Kirk. A sociedade que nega a fé religiosa não tem fé, não tem caridade, não tem justiça, nem qualquer tipo de restrição sobre os próprios atos. O cristianismo busca a redenção pessoal e não um sistema de revolução econômica. A pessoa humana é a grande preocupação da fé cristã como pessoa e não como uma vaga posição de povo, massas e desprivilegiando. “A luta da humanidade, amparada pelo espírito religioso é pelo certo, contra o mal e para defender o legado da natureza humana e da civilização”, ressalta Kirk. Os valores e as lealdades ancestrais vem sendo duramente atacados na obsessão pela essencialidade de raça, gênero e etnia. Por trás de cada exemplo se esconde um padrão único e não vocalizado, e em toda política identitária esse padrão é o Poder. Qualquer coisa que aumente os benefícios para meu grupo ou para grupos aliados é chamada de justiça social. As escolhas têm base na biologia, na cultura ou em ambas, os resultados agregados são representativos de interesses e motivações, e não correspondem igualitariamente a raça, identidades ou gêneros. Quando Rousseau, em O Contrato Social, defendeu que havia um bom selvagem dentro de cada um de nós, que a civilização não libertava, mas escravizava, e que todo progresso era deterioração, clamando: “livrai-nos das artes e ciências fatais de nossos antepassados, devolvei-nos a ignorância, a inocência e a pobreza”, recebeu de Voltaire o comentário “Ninguém jamais foi tão espirituoso quanto você na tentativa de nos transformar em brutos. Ler seu livro me fez ter vontade de começar a andar de quatro”. Para Locke, o problema do estado natural é o convite ao uso da força para impor sua vontade ao outro. Jonas Goldberg escreve em O Suicídio do Ocidente: ”Cada um de nós inicia sua jornada como um selvagem ignorante. A nobreza precisa ser ensinada e conquistada”.

Dr. Geraldo Ferreira – Médico e Presidente do  Sinmed RN

 

 

Artigo publicado no Agora Jornal dia 30 de dezembro de 2021.