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Artigo: Construindo um mundo pior

14 out 21

Artigo: Construindo um mundo pior

O mundo estremece sob o açoite da pós-modernidade e sua recusa a qualquer definição fechada e finita, adotando como marcos a incerteza e a ansiedade. Valores e ideias são questionados, num processo de autocrítica interminável. A Cultura engloba técnica e costumes, rituais e crenças, expressão artística, sistema educacional. A ilusão do multiculturalismo que a tudo iguala, diz Leszek Kolakowski, em A Modernidade em um Julgamento Sem Fim, abre as portas para o embate sobre o comportamento nas esferas da religião, da moral, do Direito e das regras intelectuais. As pessoas vivem dentro de tradições diferentes e realizam suas aspirações dentro delas. Pensar as culturas como iguais difere da realidade, em que cada uma tem seus padrões e regras e estas podem ser conflitantes entre si. Se aprovação é dada a regras ou comportamentos mutuamente excludentes, esse paradoxo pode avançar além dos limites que permitam distinguir o que é civilização e barbárie. A deificação do homem e da natureza, trazida pelo Iluminismo e pela modernidade, alumiada pela razão e pela ciência, afastou a religião, mergulhando o mundo no niilismo moral, rumo ao desespero. O Cristianismo, diz Kolakowski, nunca considerou a ideia de “uma sociedade sem mal, sem pecado ou conflitos; tais ideais são aberrações de uma mente convencida de sua onipotência, são frutos de orgulho” e arremata “cuidados sem fim, incompletude sem fim, esses são o nosso quinhão.” Sem prometer uma solução mundana definitiva para a esfera humana, o cristianismo ofereceu uma saída para os que acreditaram em soluções perfeitas e definitivas, e depois a perderam, atalhando a degeneração que leva ao desespero. Na idade moderna, principalmente nos últimos dois séculos, desenvolveu-se no Ocidente um amplo consenso em favor do liberalismo, sob os pressupostos de democracia, limitação dos poderes do governo, direitos humanos, igualdade jurídica entre os cidadãos, liberdade de expressão, respeito à diversidade, respeito à razão e liberdade religiosa. O liberalismo poderia ser pensado, como colocam Helen Pluckrose e James Lindsay em Teorias Cínicas, como um terreno comum, compartilhado, que propicia possibilidade de resolução de conflitos pela via do debate racional como opções de políticas públicas. A desilusão com o Marxismo, o declínio da visão religiosa do mundo e o avanço generalizado da tecnologia, empurraram o mundo para a pós-modernidade. Essa pressão revolucionária, abraçada radicalmente pela esquerda, levou à guerra cultural que define a vida política e social desde o início do século XXI. O pós-modernismo, ramificado em teorias que desmantelam categorias como conhecimento e crença, razão e emoção, homens e mulheres, com pressão crescente para censurar a linguagem e a liberdade de pensamento, levantou dúvidas tão radicais sobre a estrutura do pensamento e da sociedade que é, em última análise, uma forma de cinismo, dizem Helen e James. Vivemos o momento de uma das ideologias “menos tolerantes e mais autoritárias com que o mundo tem que lidar desde o colapso do colonialismo e do comunismo, montada sobretudo nas formas da política identitária e do politicamente correto.” O ativismo que caracteriza essa ideologia é obcecado por poder, linguagem, conhecimento e comportamento, interpretam o mundo sob essas lentes, centralizando ressentimentos sociais e culturais que convertem tudo em luta política. Busca-se uma inversão na relação de poder, onde, como diz Mathieu Bock-Côté “não se deve garantir a plena expressão da maioria, mas sua neutralização, para suscitar o advento político das minorias”. Helen e James dizem que sob os marcadores de identidade como raça, sexo, gênero, sexualidade, essa cultura que em tudo enxerga poder e sua capacidade de criar desigualdade e opressão, “parece ter se originado em outro planeta, cujos habitantes não conhecem espécies que se reproduzem sexualmente e que interpretam todas as nossas interações sociológicas humanas da maneira mais cínica possível”.

Dr. Geraldo Ferreira – Médico e Presidente do Sinmed RN

 

Artigo publicado no Agora Jornal dia 14 de outubro de 2021