Artigos

ARTIGO: A psicologia totalitária dos coletivos diversitários

13 jan 22

ARTIGO: A psicologia totalitária dos coletivos diversitários

Vivemos um mundo que se vê fraturado, onde as divisões são sobretudo identitárias e com pouco ou nenhum espaço para debate. “Cada um proclama suas filiações diante dos outros, lança seus anátemas, mobiliza os que lhe são próximos, diaboliza o inimigo”, escreve Amin Maalouf em O Mundo em Desajuste. A coexistência humana vai ficando mais difícil com a exasperação da sensibilidade das crenças, solidariedades e filiações a grupos identitários. O aniquilamento político e moral do Comunismo, que era assumidamente ateu, e a morte de suas utopias, recolocou em pauta lealdades e grupos que buscam um teto onde acomodar seus anseios. A Democracia fica o tempo todo submetida aos sobressaltos das disputas de grupos sobre paridade, fidelidade, parecença, uma pauta que exclui mais do que inclui. Ouvir cada tribo pode ser um espetáculo “ao mesmo tempo edificante, fascinante e aflitivo”, diz Maalouf. Todos os discursos ora parecem justos, ora falsos, cada um gira em sua própria órbita, onde meias palavras bastam para mobilizar os companheiros, sem preocupação com o que pode estar dizendo ou sentindo o adversário. Movimentos de massa se formam frequentemente em torno de indivíduos que compartilham o mesmo ódio político. Clamores por justiça viraram desejos de vingança histórica. Grupos identitários, os Antifas, antifascistas, e BLM, black lives matter “são doutrinados em uma ideologia marxista-anarquista, treinados na violência e convencidos de que são uma ideia, suas agendas vão para as habituais demandas de destruição da sociedade existente”, diz Mark R. Levin em Marxismo Americano. Para eles o indivíduo deve desaparecer diante “do bem maior, ou da causa maior construída sobre o igualitarismo radical, ou seja, O Coletivo”, completa Levin. A base filosófica é encontrada em Rousseau, Hegel e Marx que defendem a subjugação do indivíduo à vontade geral. Em O Caminho da Servidão, Hayek, economista austríaco, alerta que a propaganda totalitária destrói todas as regras morais “porque mina um dos fundamentos de toda ética: o senso da verdade e o respeito por ela”. Há todo um processo de criação de mitos, teorias pseudocientíficas, doutrinas oficiais, e para isso podem se usar as velhas palavras, mas o sentido é alterado, numa completa perversão da linguagem. As palavras mais deturpadas são liberdade, justiça, lei, direito e igualdade. Controlando o discurso, censurando e criminalizando o pensamento divergente, alegam sustentar um tipo de vontade e libertação desejada por todos. Isso pode ir num crescente de mentira, propaganda, intimidação, força e violência, como forma de eliminar a livre expressão e liberdade de pensamento. O ataque ao individualismo, diz Levin, é tão onipresente na sociedade atual que ganhou o próprio nome moderno, a cultura do cancelamento. Kimberlé Crenshaw, professora da Universidade de Colúmbia, cunhou o termo Interseccionalidade, para descrever a interação entre os vários grupos raciais, de gênero, religiosos, de orientação sexual, em que as pessoas se colocam. Suas realidades podem ser descritas com base na intersecção entre esses grupos. Se o indivíduo é mero produto dos sistemas nos quais nasceram, e é vítima, vale destruir todo sistema. A subjetividade em suas manifestações como raça, gênero, orientação sexual, politizam as relações sociais, a intimidade é politizada, a transgressão será a palavra de ordem. O sonho do Estado socialista passou a ser o sonho do Estado diversitário. “Toda autoridade se torna uma dominação ilegítima a ser desconstruída, nada mais se sustém, o mundo é friável”, escreve Matheus Bock-Coté em Multiculturalismo. Mas a sociedade não é indeterminada, é uma realidade inserida nas entranhas da história. Em O Império do Politicamente Correto, Bock-Coté declara que a democracia não pode prescindir do conflito, mas deve civilizá-lo, a fim de torná-lo criativo, “toda a genialidade da democracia liberal consiste em evitar a conversão do adversário em inimigo”, isso possibilita aos homens “prosseguir, apesar de tudo, a obra comum que torna possível a comunidade política”.

Dr. Geraldo Ferreira – Médico e Preidente do Sinmed RN