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Artigo: A democracia ameaçada pelo poder corporativo e ideológico

06 out 21

Artigo: A democracia ameaçada pelo poder corporativo e ideológico

 

No sentido exato, a atual crise da democracia ocidental é uma crise do jornalismo”, escreveu Walter Lippmann, em 1920, em seu livro A Liberdade e as Notícias. Vale para os tempos de hoje, onde a ideologia, a propaganda e a distorção dos fatos, tudo colocado como narrativas, embaralhou o caminho do cidadão na busca pela verdade. Em O Mundo que não Pensa, Franklin Foer, ele mesmo jornalista, diz “essa geração de gigantes da mídia, que nasceram com a internet, não tem paciência para o antigo Etos jornalístico da imparcialidade”. A ideia inicial defendida por Jonah Peretti, de que histórias negativas não tinham muita chance de viralizar, foi totalmente virada de cabeça para baixo, com a realidade mostrando a Nick Denton que “os números, a audiência, não apoiarão nada valioso”. A senha estava dada, a verdade podia ser envenenada na busca por lucros. O Facebook e o Twitter apresentam a lista dos assuntos onipresentes, como tendências, e a mídia se agarra a eles desesperadamente, explorando-os em busca de cliques, até o público perder o interesse. Foer avança na direção de que a natureza da mídia mudou “transformada em mercadoria, em algo a ser negociado, testado, calibrado”, acontecendo o que mais fora temido ao longo da história, um mundo onde os leitores não sabem mais o que é conteúdo e o que é a mão dos interesses controladores, interferindo na busca pela verdade. Temas, matérias, seções inteiras de jornais, revistas, portais, televisões são transacionados para ativistas com os mais diversos interesses, Foer cita Tom Steyer pagando por matérias sobre mudanças climáticas e o Credit Suisse pagando por artigos sobre política identitária. Não é difícil perceber a partir daí a presença obsessiva na mídia dos mesmos assuntos, impulsionados pela ideologia e dinheiro dos patrocinadores. Em 1989 a queda do muro de Berlim simbolizou que o capitalismo eliminara seu inimigo histórico, e a Internet em seu formato moderno iniciava sua jornada rumo ao livre mercado. Mas o império da liberdade não chegou, as empresas se tornaram hegemônicas, pela vigilância dos usuários, pelo monitoramento total de suas atividades e nos dossiês sobre tudo e sobre todos, à base de algoritmos. A concentração do poder corporativo hoje ameaça a sociedade, o monopólio não só no campo comercial, mas estendendo-se autoritariamente para a cultura e comportamento ameaçam as liberdades mais íntimas como a de pensamento e opinião. O debate tem sido cerceado. Muitas vezes afastado das preocupações reais da população, o monólogo Progressista, que interdita o diálogo, e é conduzido exaustivamente pelo sistema político-midiático, gera desconfiança, dúvida e finalmente repulsa ao que no fundo é visto por grande parte da população como impositivo. O debate público tornou-se impossível, diz Mathieu Bock-Côté  “nos meios que fabricam a opinião e estabelecem os termos da deliberação pública, o sentido da palavra democracia modificou-se consideravelmente”. Os termos de debate são controlados e impostos pelas “elites intelectuais e midiática que dispõem de um monopólio praticamente total sobre a grande narrativa coletiva e sobre os parâmetros que a definem”. A definição de democracia vem sendo manipulada por muitos grupos, interessados em interditar diferentes visões sobre temas que sacralizaram e sobre os quais não admitem nem aceitam discordância. As palavras mais duras estão reservadas a quem ultrapassa essa linha. Frente a esse sentimento de militância audaciosa, acobertada por vastos financiamentos, a covardia tomou conta dos intelectuais. A adesão ao progressista e ao que ele dita a partir dos meios universitários, artísticos e midiáticos é concebida como um processo irresistível de afastamento da cultura tradicional, julgada retrógrada. Morta a liberdade e a Democracia, caberia ao homem desqualificar-se de todo pertencimento histórico ou natural, e como intui Bock-Côté, em Multiculturalismo, lançar-se ao mundo, onde “se pode ser tudo e qualquer coisa, sem jamais ser coisa alguma”.

 

Dr. Geraldo Ferreira – Médico e Presidente do Sinmed RN

 

Artigo publicado no Agora Jornal dia 06 de outubro de 2021