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Artigo: A vida nos encantos da leitura

25 nov 21

Artigo: A vida nos encantos da leitura

A mente sempre procura preencher suas necessidades de beleza, verdade e compreensão, pressões sociais e modismos conseguem obscurecer muitas vezes esses padrões. “Recorro a apenas três critérios quando leio ou ensino, esplendor estético, força intelectual e sapiência”, escreve Harold Bloom em Onde Encontrar a Sabedoria. Esta, por sua vez, só pode ser alcançada na solidão e na reflexão. O Eclesiastes alerta, no entanto, “na grande sabedoria, há grande pesar; e aquele que cresce em saber, cresce em dor”. A informação hoje circula por todos os lugares, mas onde está a sabedoria? Há um demônio que circula dentro de nós, diz Virgínia Woolf, e ele sussurra dentro do nosso ouvido “detesto, gosto”. Devemos ler o que nos diz respeito e nos é útil, Francis Bacon aconselhava “leia para refletir e avaliar”. A literatura tem sido invadida pelo ativismo político limitante, universidades e editoras concedem poderes a grupos fechados que privilegiam as questões de gênero, sexualidade, racismo, multiculturalismo, impregnadas de um discurso cheio de chavões e vocabulário construído para militância. A ideologia, inimiga do humor e da ironia, passa longe de conter qualidade ou força cognitiva. Emerson escreveu: “O estudioso é uma vela acesa pelo afeto e pelo gosto de toda humanidade”. A ironia liberta a mente da presunção dos ideólogos e faz brilhar a chama do intelecto, proclama Bloom. Em Shakespeare, Hamlet pergunta “Quais são as novidades?”, Rosenkrantz responde “Nenhuma, senhor, a não ser a de que o mundo se tornou honesto”. Torna Hamlet “Então é o fim do mundo: mas suas novas são falsas”. Theodore Dalrymple conta como somos atraídos a pegar um livro e escolhê-lo, no caso, às vezes um prefácio: “Hoje os pacientes procuram se precaver melhor contra médicos que exerçam mal a sua profissão”. Sendo médico, Theodore que na verdade é pseudônimo do psiquiatra Anthony Daniely vê-se logo fisgado. A compra de livros em sebos revela Dalrymple em O Prazer de Pensar, traz além do texto em si a história daquele exemplar, através de palavras destacadas, comentários escritos ou mesmo fotos ou cartas esquecidas marcando páginas. Emily Dickinson diz que o que funciona de forma indireta na mente é mais eficaz “diga toda verdade, mas diga-a indiretamente, o sucesso reside no rodeio”. “Quando se dá livre curso ao explícito, este tende a se tornar um deus selvagem”, fecha Dalrymple. Em Cervantes, Sancho pergunta a Quixote se o mesmo não tinha sido enfeitiçado, por que haveria de enlouquecer. “A minha intenção é me tornar lunático sem o menor motivo”, recebe em resposta. O livro em si aponta que Quixote enlouquecera de tanto ler livros de cavalaria, mas a evolução vai mostrando a transmutação dos mundos com a Loucura visionária de Quixote exibindo um aspecto mais cauteloso e a astúcia e bom senso de Sancho se transformando em um mundo de faz de conta e busca. “Sei quem sou, e quem posso ser, se eu assim quiser”, diz Quixote. O afeto e a lealdade entre os dois é contrastada com os personagens masculinos em Shakespeare, para Harold Bloom, “as personagens femininas, criadas por Shakespeare são capazes de manter entre si amizades sinceras, mas não os masculinos”. Mesmo o príncipe Hall e Falstaff, veem seu relacionamento se encerrar quando Hall vira Henrique V. Ao sábio Akiba, contemporâneo de Tarphon, é atribuída essa formulação em As Falas dos Patriarcas “O silêncio é a proteção da sabedoria. Tudo é previsto, o livre-arbítrio é dado, o mundo é julgado pelo bem, e tudo de acordo com o trabalho realizado”. Para Tarphon “o dia é curto, a lida interminável e o senhor da casa é exigente. Não é necessário concluir o trabalho, mas tampouco tem-se a liberdade de desistir do mesmo”. É alta a recompensa: a bênção de uma vida longa, em um tempo sem fim.  Chaucer, em Os Contos da Cantuária, dá uma magnífica instrução para a jornada “É bom que nos comportemos com serenidade, pois estamos sempre nos deparando com pessoas com as quais não marcamos encontro algum”.

Dr. Geraldo Ferreira – Médico e Presidente do Sinmed RN

Artigo publicado no Agora Jornal dia 25 de novembro de 2021.