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A religião na história - artigo de Geraldo Ferreira

19 out 17

A religião na história - artigo de Geraldo Ferreira

Desde as sociedades caçadoras-coletoras, a religião procura explicar porque acontecem coisas ruins e oferece maneiras de como tornar as coisas melhores. Ela evoluiu do interesse egoísta de ter acesso às forças que parecem controlar o destino, com o intuito de torná-las favoráveis, até a visão de que há um propósito e uma ordem invisível, inerentemente boa, à qual devemos nos ajustar de forma harmoniosa. Isso nos permite enfrentar as adversidades com mais dignidade e menos sofrimento. O mundo moderno sofre de desencantamento, desde que a ciência passou a explicar cada vez mais o funcionamento da natureza. Para os ateístas como Christopher Hitchens, em Deus não é Grande, a religião envenena tudo, é violenta, fanática e hostil à livre investigação, para Daniel Dennett, em Quebrando o Encanto, a religião é um fenômeno natural da evolução humana com pelo menos três objetivos: confortar dos sofrimentos e acalmar o medo da morte, explicar coisas que não podem ser explicadas de outro modo e encorajar a cooperação em um grupo frente a desafios e inimigos. A ânsia por salvação no mundo antigo baseava-se em parte no entendimento de que a vida terrena era impura em si mesma. As escrituras fazem reflexões graves acerca da existência humana, mas a ampliação do mundo e dos contatos entre as pessoas demandava compromissos de convivência, ampliando a compreensão e exigindo benevolência. Na Chin, Confúcio disse que a virtude suprema era o ren, uma sensível preocupação com os outros, ame seus semelhantes. Uma geração depois, o filósofo chinês Mozi, dizia que o supremo deus chinês Tian desejava que os homens amassem e auxiliassem uns aos outros, e não desejava que eles odiassem ou prejudicassem uns aos outros. Na Índia as escrituras budistas diziam: que ninguém engane ou despreze outrem, ou devido à raiva ou má vontade deseje que alguém sofra. A vida após a morte é moralmente condicionada, no Livro dos mortos, escrito no segundo milênio antes da era cristã, há um ensinamento de como se deveria defender a alma ao se apresentar ao tribunal dos deuses, presidido por Osíres: não pratiquei o mal, não maltratei criados, não despojei o pobre de suas propriedades, não causei dor, não fiz nenhum homem sofrer fome, não fiz ninguém chorar, não matei, não dei ordem para que matassem, não infligi sofrimento a ninguém, não furtei, não subtraí, não roubei, não me apossei do campo de outrem, não tirei o leite das crianças, sou puro, sou puro.

 

*Artigo publicado no Novo Jornal em 20/10/2017.

Fonte: Geraldo Ferreira Filho