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"A Origem do Homem" - Artigo de Geraldo Ferreira publicado no Novo Jornal

31 ago 17

 

Stephan Gould, citando Merton, diz que a maior parte das ideias está no ar e muitos eruditos passam suas redes ao mesmo tempo. Michael White, em Rivalidades produtivas, descreve oito casos onde ideias foram desenvolvidas quase simultaneamente. O fenômeno se apresentou também na seleção natural. Darwin desenvolveu sua teoria da seleção natural em 1838, apresentando-a em dois esboços não publicados em 1842 e 1844. Em 1958 Darwin recebeu uma carta e um manuscrito de um jovem naturalista, Alfredo Russel Wallace que idealizara independentemente a mesma teoria. Wallace tem permanecido na história como a sombra de Darwin. A afeição e apoio mútuo que os uniu mascarou um desentendimento sério, até que ponto a seleção natural é exclusiva como agente da mudança evolutiva. Os selecionistas estritos, como Wallace, tinham uma profunda convicção na exatidão da natureza e apostaram na força onipotente da seleção natural, já Darwin, contemplando um universo confuso que alcançou adequação e harmonia, acreditava na seleção natural como uma força destacada, mas apontava outros processos que atuavam tão bem quanto ela. Particularmente levantava que uma mudança adaptativa poderia levar a modificações não adaptativas de outras características e que um órgão adaptativo para um papel específico poderia desempenhar outras funções não selecionadas. Wallace mantinha sua posição de que nada podia existir sem ter sido ou ser úteis aos indivíduos ou espécies. Inicialmente discordaram na seleção sexual, onde características aparentemente desfavoráveis, como a cauda do pavão, se apresentavam evolutivamente como favoráveis ao acasalamento e à reprodução. Mas o maior conflito entre Darwin e Wallace viria quanto ao homem. A questão do cérebro intrigou Wallace porque uma estrutura tão complexa e subutilizada chegara ao homem, quando avanços adaptativos buscavam soluções para problemas imediatos. Se um órgão pode ser preparado para um futuro progresso, então haveria uma inteligência superior a guiar o homem para um propósito especial. O hiperselecionismo de Wallace conduziu à crença básica do criacionismo. Para Darwin, estruturas criadas para uma função poderiam como resultado abrigar um novo conjunto de funções. Jay Gould colocou o debate nos termos de que a natureza tem suas harmonias e capacidades latentes, nesta flexibilidade residem à confusão e a esperança de nossas vidas.

 

*Artigo de Geraldo Ferreira publicado no Novo Jornal em 01/09/2017

 

Fonte:   Geraldo Ferreira Filho