Notícias

Pediatria: “No meu entendimento é uma situação tão grave que todas as entidades devem se envolver”, afirma Geraldo Ferreira

17 May 17

Pediatria: “No meu entendimento é uma situação tão grave que todas as entidades devem se envolver”, afirma Geraldo Ferreira

O Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Norte (Sinmed-RN) recebeu uma denúncia de profissionais do setor pediátrico do Hospital Municipal de Natal, em Petrópolis, acerca de uma suposta superlotação de leitos infantis, bem como a informação de que, para atender à grande demanda desses pacientes, estaria precisando transferir algumas crianças para outros setores, como à Ortopedia, cujo funcionamento dura até 19h. A unidade aproveitaria esse horário para realizar o atendimento infantil no local pela falta de espaço no setor original. O Agora Jornal foi ao Hospital Municipal de Natal para averiguar as denúncias recebidas pelo Sinmed-RN e constatou que elas são verdadeiras.

Ao todo, o Hospital Municipal de Natal possui três quartos com leitos espalhados dentre eles. No primeiro quarto (Enfermaria Golfinho) há quatro leitos – muito embora o aviso na porta demarque cinco –; no segundo quarto ao lado (Enfermaria Estrela do Mar), ficam mais três leitos; por fim, no terceiro e último quarto (Enfermaria Cavalo Marinho), há apenas duas camas. Muito embora os quartos estejam bem equipados, abastecidos de alimentação e protegidos da luz do sol, é possível ver alguns defeitos que comprometem a saúde dos pacientes e o conforto de seus acompanhantes.

Em pelo menos um dos quartos – o Cavalo Marinho –, a reportagem apurou sinais de mofo no teto, logo acima de um dos leitos, situação perigosa para os pacientes (principalmente no inverno), e moscas planando perto das crianças; além disso, algumas poltronas destinadas às mães estavam rasgadas.

No hospital, Diego Barreto, diretor-clínico do hospital, atendeu à reportagem e explicou que realmente há uma superlotação de pacientes infantis, principalmente nesta época do ano –, quando há um maior número de infecções de vias aéreas (VIAs). Neste caso, as maiores vítimas são idosos e as crianças. Barreto avaliou que, apesar do Governo do Rio Grande do Norte atentar à necessidade de vacinação para imunizar o maior número possíveis de pessoas, a falta de capacidade evidenciada pelos corredores do HMN mostra que a campanha não tem sido aderida pela sociedade, o que, segundo ele, é apenas um dos motivos para a quantidade de crianças a serem atendidas.

“Nesse período a situação se complica por causa das bronquiolites e das pneumonias, que causam problemas respiratórios que exigem internação. Consequentemente, é de se esperar essa superlotação nos prontos-socorros, tanto para adultos quanto para infantis. O que fazemos é nos preparar para atender à demanda, de modo que não haja tanto prejuízo aos pacientes”, explicou.

A realocação de crianças dentro do Hospital Municipal de Natal também é uma realidade. Além do caso citado no setor de Ortopedia – cujo horário de fechamento pode acabar ampliado, dificultando as transferências improvisadas –, Diego Barreto informou que o pronto-socorro para adultos também vem sendo usado como paliativo quando não há como manter os pacientes nos leitos da Pediatria. Apesar de admitir que esta não deveria ser a situação normal, o médico se mostrou agradecido pelo fato de todos os setores do hospital estarem cooperando entre si para aguentar a demanda, a despeito das limitações.

“Às vezes acontece. A Ortopedia só funciona até as 19h, mas há um projeto para ficar até mais tarde. Tivemos que abrir a Ortopedia à noite e colocamos uma parte das crianças para ser atendida lá. Há um pediatra lá que vai atendendo e liberando. Já as crianças que precisam de isolamento, por exemplo, tivemos que colocar no pronto-socorro adulto, em separado. O hospital como um todo se ajuda. No que estivermos precisando, vamos nos adaptando à situação. Claro que não está satisfatório, mas não é a pior coisa do mundo. Temos que melhorar e ampliar os serviços para que essas medidas não sejam mais necessárias”, contou à reportagem.

Para Barreto, o setor de pediatria no Rio Grande do Norte ainda é muito deficiente no tocante às especialidades. O fato de que o Hospital Walfredo Gurgel e demais hospitais estaduais passarão a receber apenas casos de alta complexidade pode agravar o problema de superlotação, isto porque restarão apenas as unidades de pronto-atendimento, como as de Cidade da Esperança, Potengi e Pajuçara (não tão preparadas), e as casas de saúde como o próprio HMN e as Unidades Mistas de Cidade Satélite e Mãe Luiza. “O Walfredo Gurgel, em sua complexidade, realmente atende pacientes mais graves, só que com essa regulação, os hospitais vão servir como portas de entrada de urgência e emergência”, observou.

Diego Barreto, por fim, elencou um último fator que, de acordo com ele, tem contribuído para a superlotação do hospital, não apenas no setor de Pediatria: a vinda de pacientes de outras cidades. “Natal está crescendo, há 800 mil habitantes e mais de 1 milhão e 200 mil de cartões do SUS, ou seja, temos mais cartões do que habitantes. Isso mostra que pacientes estão vindo do interior porque não têm assistência lá; isso nos prejudica. Se falta médico e atendimento também nas cidades vizinhas da Região Metropolitana, eles vêm para Natal. Há também uma demanda maior devido à deficiência no entorno de Natal”, lamentou o diretor-clínico do Hospital Municipal de Natal.

“Situação é extremamente crítica. Vamos mobilizar a sociedade”, diz presidente do Sinmed
Foi Geraldo Ferreira, presidente do Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Norte, quem recebeu a queixa dos profissionais do Hospital Municipal de Natal. A denúncia ainda expõe que há demora na realização dos exames das crianças, falta de carro para transporte de pacientes, bem como de segurança no local. Em entrevista ao Agora Jornal, Geraldo declarou que há compreensão de que o Walfredo vá apenas atender casos mais graves, mas, ainda assim, se mostrou desgostoso com a situação da Pediatria no HMN e falou em mobilizar a sociedade, através de entidades de direitos humanos, para encontrar uma solução para a situação que ele classifica como “extremamente crítica”.

“Temos essa situação em que o Walfredo Gurgel só recebe pacientes encaminhados em situações mais críticas, como traumas. Não podemos tomar medidas no ímpeto, porque a realidade é que os hospitais estão superlotados. Só que a grande verdade é que no HMN, o número de leitos pediátricos diminuiu, não aumentou. O Santa Celeste, que tinha mais leitos, em torno de 18, foi substituído pelo HMN e houve uma perda. Fora isso, tínhamos o Hospital Infantil que dava suporte, mas eles desativaram dez leitos. Temos uma situação extremamente crítica na pediatria e isto está nos preocupando muito. As crianças já estão sofrendo com falta de vagas na UTI, de internamento, dentre outras situações. Isso vai nos obrigar a mobilizar a sociedade. Estamos pensando em visitar o Ministério Público do RN e entidades de defesa de direitos humanos, porque isso fere frontalmente os direitos da pessoa. O hospital está abarrotado de pacientes e isso o obriga a usar setores que não são apropriados, porque o número de pacientes que procuram essa assistência é muito grande”, disse.

Presidente do Sindicato dos Médicos, Geraldo Ferreira – Foto: Divulgação

Avaliando o quadro geral, o presidente do Sinmed-RN foi crítico tanto no tocante aos serviços de saúde pública quanto os privados. Para Geraldo Ferreira, todos os dois têm falhado com a sociedade. “Temos tido uma preocupação com essa desativação de leitos que ocorre tanto na rede pública quanto na privada. Sabemos que o Hospital Promater fechou leitos e deixou de receber pacientes de pediatria da Unimed; isso é brincar com assistência à saúde das pessoas – não pode ser dessa forma. Serviço público tem obrigação constitucional de atender e o serviço privado a pessoa paga para ser atendida, mas todos os dois estão falhando. Claro que nossa preocupação maior é com a rede pública, já que a maior parte da população é atendida por ela, mas o fato é que infância do RN está profundamente desassistida nos dois setores”, apontou. “Esses pacientes chegam lá porque não têm assistência primária, ou seja, procuram fichas no programa ‘Saúde da Família’ e nos ambulatórios, mas não existe. Eles não têm onde procurar assistência. Temos a compreensão de que quando uma pessoa tem uma doença menos grave e vai a esses hospitais, quer dizer que já procurou inúmeras vezes outros métodos sem sucesso. A solução que está se dando para esses casos é encaminhar esses pacientes para o ‘Saúde da Família’ e aos ambulatórios, só que isso acaba se tornando uma enganação, porque não há fichas suficientes; nem equipes suficientes; nem ambulatório e programas para atender essas crianças”, completou Ferreira.

O Sindicato dos Médicos do RN promete não ficar parado. De acordo com Geraldo Ferreira, estão previstas reuniões com entidades como a Promotoria Pública, o Conselho Regional de Medicina, a Sociedade de Pediatria e, até mesmo, a Câmara Municipal de Natal, através dos vereadores Sandro Pimentel (PSOL) e Fernando Lucena (PT) da bancada da Comissão de Direitos Humanos. “No meu entendimento é uma situação tão grave que todas as entidades devem se envolver”, concluiu.

Fonte: Agora RN