Doença mental e Ideologia – Artigo de Geraldo Ferreira

11/05/2017

Doença mental e Ideologia – Artigo de Geraldo Ferreira

11/05/2017

Doença mental e Ideologia – Artigo de Geraldo Ferreira

 

A burguesia é defensora de uma suposta normalidade, e as doenças mentais, para Michel Foucault, são rótulos para proibir e oprimir os que desafiando sua normalidade, desafiam por consequência o domínio social e político que ela valida e dissimula. Para Roger Scruton, o tema da obra de Foucault é a busca pelas secretas estruturas de poder, cada estrutura de saber é serva de algum poder ascendente, a criação de uma verdade serve ao interesse do poder. Em História da Loucura começam os delírios de Foucault, para ele no século XIX a loucura torna-se uma ameaça a toda estrutura da vida burguesa, ao não submeter-se às normas familiares. No asilo a loucura é forçada a ver-se como desobediência e transgressão. Em O Nascimento da Clínica, ele expande as ideias de observação e normalidade, para explicar não apenas o confinamento dos loucos, mas o confinamento das doenças. É então que o hospital, uma das mais benignas realizações humanas, se transforma numa conscientização assombrada e persecutória da fonte oculta de poder. Para Foucault a obsessão é desmascarar as instituições humanas, resta saber, diz Scruton, se este desmascarar revela a verdade sobre o assunto ou é apenas uma nova e sofisticada forma de mentira. Theodore Dalrymple relata que durante a maior parte de sua existência, os manicômios foram instituições de custódia, e não de terapia. Tentativas de curas por métodos desesperados, como cirurgias cerebrais, coma insulínico, remoção da dentição infeccionada, deram aos manicômios a visão de câmara de horror, de rituais bizarros, para encarcerar desvios de padrão de conduta. A descoberta de intrincados mecanismos bioquímicos e a introdução de medicamentos eficazes não deteve as consequências do ataque demolidor de Foucault à psiquiatria e por fim a todo restante da medicina, apresentadas não como ciência para cuidar da humanidade, mas como expressão de poder da profissão médica. Essas ideias prepararam o caminho para a desinstitucionalização mal planejada e precipitada dos doentes mentais. Políticos querendo economizar e a crítica Foucaultiana de que a sociedade não tinha direito de impor restrições aos loucos, sendo dever dos cidadãos tolerá-los, fechou hospitais psiquiátricos e abandonou esses pacientes, que hoje  perambulam pelas ruas cometendo delitos e sendo vítimas de abusos ou crimes. Dalrymple encerra a questão, Foucault e seus seguidores não servem como guias. A falta de tratamento adequado aos pacientes psiquiátricos é uma opção pela barbárie.

 

 
*Artigo de Geraldo Ferreira publicado no Novo Jornal dia 10/05/2017

 

  

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