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A Política em conflito

31 out 18

A Política em conflito

O Liberalismo clássico gerou o Conservadorismo, e do Marxismo, juntando teses de esquerda com a noção de natureza humana de Rousseau, veio o liberalismo de esquerda, que Jacob Burckhardt chama os terríveis simplificadores, que usam o termo liberal para enfatizar a vinculação à liberdade pessoal e cívica, mas aceitam trocar sua independência por direitos. A política é para eles a chance de dar cabo ao governo político e às limitações aos apetites e paixões restringidos por leis sancionadas pelo Estado. Dostóievski já alertava, partindo-se da liberdade ilimitada chego ao despotismo ilimitado. A emancipação final da religião, do Estado, da lei moral e da lei positiva, bem como das responsabilidades sociais, numa obsessão por uma liberdade abstrata acima da ordem pessoal e pública é uma cruel ilusão. Ao sustentar que o que mantém a sociedade é o auto interesse, intimamente associado ao materialismo, o Liberalismo de esquerda se choca com o conservadorismo que vê a sociedade como uma comunidade que une mortos, vivos e não nascidos numa teia de compromissos e herança. Assumindo a causa do indivíduo autossuficiente, ele vê a natureza humana como boa, o Estado como opressor, e o mundo como um palco para o ego, com seus apetites e paixões de autoafirmação. Para os conservadores, segundo Russel Kirk, a natureza humana é composta tanto pelo bem, quanto pelo mal, os seres humanos são imperfeitos, o Estado é algo natural. Sem ele, como dizia Santo Agostinho, a vida seria solitária, sórdida, pobre, embrutecida e curta, e no espaço do mundo o conservador enxerga que o dever, a disciplina e o sacrifício são necessários, a função do governo é prover as necessidades dos homens, mas sem deixar de conduzir a defesa comum da sociedade, freando impulsos e paixões, para restringir os injustos ou impetuosos, que confrontam o bem-estar geral. Kirk diz crer numa ordem moral duradoura, e que os conservadores sabem que ordem, justiça e liberdade são produtos de uma longa experiência, defendem os costumes, o hábito, as instituições, sabem que a maior virtude em política é a prudência, desconfiam de qualquer ideologia calcada num princípio abstrato como igualdade, liberdade, justiça social ou grandeza nacional, apoiam a propriedade privada e a livre empresa, e o governo honesto que reprime a violência e a fraude, base para uma economia saudável. Em oposição a isso, o liberalismo de esquerda, na perseguição da utopia do individualismo, nos oferece a ideologia do egoísmo universal.

Geraldo Ferreira – Presidente do Sinmed RN

 

 

*Publicado dia 31 de outubro no Agora Jornal.